sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Como nasce um Cabra da Peste é a atração deste sábado no festival de teatro

Após a peça, que encerra o festival, haverá bate-papo com os artistas

Foto: Divulgação
A terceira edição do Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha encerra neste sábado (07). E para fechar a programação quem sobe ao palco é a Agitada Gang, de João Pessoa, com o espetáculo “Como nasce um Cabra da Peste”. A apresentação será às 20h, no Teatro Municipal de Itajaí, e após a peça os artistas irão conversar com o público sobre o processo de criação. Os ingressos custam R$ 20,00 inteira e R$ 10,00 meia entrada (estudantes, idosos e quem levar 1 litro de leite).

A risada está garantida com a trupe de atores e palhaços que levará ao palco uma mistura de teatro, circo, acrobacias e muito humor. “Como nasce um Cabra da Peste” conta a história do nascimento do filho de Joaquim e das Dores. Rodeado de superstições e presságios, o nascimento da criança é acompanhado pela parteira Gerusa que faz o casal passar pelas mais cômicas situações, tendo como pano de fundo as crendices populares do sertão nordestino. O espetáculo tem duração de 1 hora e a classificação etária é livre.

Além do espetáculo, neste sábado a programação começa às 10h com Mesa de Debate com os críticos Dâmaris Grün, Humberto Giancristofaro e Mariana Barcelos sobre o papel da crítica no teatro contemporâneo. O debate será na Casa da Cultura Dide Brandão.

Às 14h, haverá conversa sobre o processo de montagem do espetáculo Odisseia, do Estúdio da Cena de São Paulo, na Casa da Cultura Dide Brandão.

Atores dialogam com o público sobre a montagem do espetáculo Gueto Bufo




Durante toda a semana foram apresentadas no período noturno diversas peças teatrais no Teatro Municipal de Itajaí, onde grupos de vários estados que juntamente com os atores das mostras locais movimentaram o III Festival Brasileiro Toni Cunha. No dia posterior a peça apresentada, os atores participaram de um debate para discutir com a plateia a respeito da apresentação. Na tarde desta sexta – feira (06), o bate – papo foi realizado na Casa da Cultura Dide Brandão para falar sobre o espetáculo “Gueto Bufo”, apresentada pelo grupo Cia do Giro, de Porto Alegre (RS).

Com cerca de 1 hora de apresentação, o grupo trouxe a história de duas bufonas, Vênus e Filó, que foram expulsas de um espaço público e se refugiaram em um gueto. Ali, iniciam um jogo de encenações para passar o tempo. Elas jogam de forma cômica as situações que vivem diariamente, parodiando seus opressores e ilustrando assim a delimitação de território feita pela sociedade.

A diretora Daniela Carmona interagiu na roda de conversa para explicar sobre as técnicas nos bufões, que significa trabalhar com humor, mas com um toque de ironia. Autora do livro “Teatro – Atuando, dirigindo, ensinando” da Editora Artes e Ofícios, Daniela conta que o espetáculo já está em circulação há 15 anos. Embora o grupo trabalhe com outras habilidades teatrais, ela relata que essa técnica que mais utilizam.

O espetáculo faz crítica a religião e a sociedade, que segundo a atriz, faz parte do processo técnico da paródia inserida no bufão. "È impossível trabalhar com o bufão sem fazer paródias, trabalhar com essa habilidade traz a compreensão de estar no palco, de se libertar emocionalmente”, ressalta.

Durante o debate o diretor Adriano Boségio comenta que o grupo costuma sair atrás dos personagens nas ruas que tem haver com o contexto da peça. Para eles, a maior dificuldade de apoio foi a utilização de maquiagens. As técnicas mais utilizadas antes da apresentação são o treinamento da voz, alongamento e meditação.

Os atores tem o acompanhamento de profissionais da área de antropologia, psicologia e filosofia, que tem o objetivo de orientar os artistas na questão do comportamento e a comunicação com o público. Além disso, o grupo que veio pela primeira vez em Itajaí elogiou a receptividade da cidade durante a apresentação. “Eu fiquei encantada com a cidade, muito linda e organizada e com a plateia muito calorosa. Fiquei muito feliz em estar aqui, a reação das pessoas no espetáculo de ontem foi muito gratificante”, comenta Daniela Carmona.

E o III Festival Brasileiro Toni Cunha continua. Nesta sexta – feira (06), às 20h, no Teatro Municipal, tem apresentação do espetáculo Odisseia, do Estúdio da Cena de São Paulo. Um dos principais poemas épicos da Grécia Antiga, Odisseia, escrito há quase três mil anos pelo pensador Homero, ganhou uma versão contemporânea que promete envolver o público. A peça conta a história do retorno de Odisseu à Ítaca, sua terra natal, após a Guerra de Tróia. Ao voltar pra casa, depois de trinta anos longe, o protagonista não reconhece mais aquele lugar, no caso uma metrópole. Os ingressos custam R$20 inteira e R$ 10 meia - entrada, para estudantes, idosos ou quem levar um litro de leite.

As fotos do III Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha estão no: http://www.flickr.com/photos/secomitajai

Crítica: Um Príncipe chamado Exupéry

Fotos: SECOM/Itajai - Victor Schneider
A camada humana do boneco
por Dâmaris Grün

Um príncipe chamado Exupéry da Cia Mútua de Teatro, alicerçada companhia itajaiense conhecida pelo público local por seu trabalho com as formas animadas do teatro como a manipulação de bonecos, o teatro lambe-lambe o show de mágica, e etc., caracteriza-se por certo hibridismo bastante interessante: a interação do humano com a matéria amorfa do boneco a partir de uma manipulação que atua não somente no objeto manipulado, mas também atua no todo do espaço cênico que divide com o espectador.

O espetáculo narra a história de Antoine de Saint- Exupéry, na fase anterior ao trabalho como escritor de O pequeno príncipe, quando esse foi carteiro aéreo entre os anos de 1926 e 1944, voando desbravadamente em escalas pela Europa, África e América do Sul. Suas aventuras como “entregador” de encomendas, cartas, mensagens entre continentes é contada numa ótica extremamente afetiva.

Para ambientar essa história da forma mais lúdica e afetiva possível, a direção, acredito, optou por uma ambientação para além do espaço convencional da manipulação dos bonecos, uma vez que a plateia está dentro do espaço da cena por assim dizer. A relação é frontal, mas a área toda cenografada, que reproduz um hangar, possibilita que o espectador seja abraçado por aquele universo e se confronte com a história ali contada de forma mais cúmplice, com uma maior proximidade. Um vínculo afetivo entre cena e expectação é suscitado pelo espetáculo na medida em que ele permite que o espectador acompanhe a narrativa não somente contemplando a animação dos bonecos manipulados em cena, mas criando laços ao dividir o mesmo espaço que bonecos e manipuladores.

Assim que se chega ao espaço da cena o fictício correio postal dentro do hangar coloca o espectador imediatamente nas páginas de um livro de histórias infantis, de aventuras. Uma atmosfera lúdica e nostálgica inebria o sujeito e estabelece uma cumplicidade verificada em seguida com os manipuladores, com os bonecos e com o que é contada ali, uma narrativa visual destituída da palavra. Essa cumplicidade é muito marcada no tipo de relação que os manipuladores, Monica Longo e Guilherme Peixoto, imprimem ao trabalho ao se dirigem diretamente à plateia, ao não se ocultarem no boneco, mas evidenciar sua presença e o caráter de representação na atuação, ao evidenciar os movimentos artificiais manipulados por uma mão humana que confere certa organicidade aos bonecos. Os dois não usam as tradicionais vestimentas pretas que ocultam o trabalho de manipulação para que se destaque somente o boneco, mas sim um figurino realista, de um aviador da primeira metade do século XX.

Os fios de humanidade que contém cada andar hesitante desses personagens marionetes das mãos dos atores/manipuladores são a grande chave do presente espetáculo. A brincadeira jocosa que eles estabelecem diante da (e com a) plateia é sempre viva e dá um sentido que muitas vezes não se vê nesse tipo de trabalho, que é uma aproximação com a recepção, um olhar menos distanciado diante do objeto. Ao espectador é feito um apelo para que mergulhe na história e se familiarize com aquele mundo mágico da animação que presta uma homenagem ao criador de um dos personagens mais conhecidos da literatura mundial.

Acredito que a direção do espetáculo, de Willian Sieverdt, não procure no trabalho a perspectiva da demonstração de um teatro de animação de excelência na manipulação técnica ou para o preciosismo de bonecos e adereços da cena. Nem deseja somente contar aquela história por essa linguagem. Há no trabalho a natureza do encontro presencial que sela uma aliança entre cena e expectação. O hangar cenográfico, de Jaime Pinheiro, não só oferece aconchego aos espectadores como dinamiza a carga humana dos bonecos e principalmente, cria uma importante proximidade com a narrativa linear que tem um começo, meio e fim. Os olhares cúmplices entre bonecos e atores reverberam na expectação que assim se deixar livremente voar através dessa viagem teatral animada pela figura cativante do aviador Exupéry.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Atrações desta sexta-feira no Festival de Teatro

Odisseia é a penúltima atração do festival

Um dos principais poemas épicos da Grécia Antiga, Odisseia, escrito há quase três mil anos pelo pensador Homero, ganhou uma versão contemporânea que promete envolver o público nesta sexta-feira (06) no III Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha. A partir das 20h, no Teatro Municipal de Itajaí, o Estúdio da Cena de São Paulo, conta a história do retorno de Odisseu à Ítaca, sua terra natal, após a Guerra de Tróia. Ao voltar pra casa, depois de trinta anos longe, o protagonista não reconhece mais aquele lugar, no caso uma metrópole.

O espetáculo, que estreou em 2012, apresenta um texto cheio de referências históricas e atuais. Em cena, os atores se transformam em vários personagens, e no decorrer desta aventura épica, porém bastante atual, buscam entender os últimos 30 anos da história do Brasil.

Os ingressos custam R$ 20,00 inteira e R$ 10,00 meia entrada (estudantes, idosos e quem levar 1 litro de leite).

Nesta sexta, atores e espectadores realizam debate sobre seis espetáculos

Nesta sexta-feira (06), às 10 horas, será realizado na Casa da Cultura Dide Brandão um encontro que reunirá atores, espectadores e amantes do teatro para trocarem ideias e debaterem os processos de montagem dos espetáculos do III Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha: Pequeno Inventário de Impropriedades (Téspis Cia. de Teatro), Mistérios de Elêusis (Eranos Círculo de Arte), Um Príncipe Chamado Exupéry (Cia. Mútua), Alevanta Boi! (Cia. Manipuladora de Formas Etc i Tal) e Luisa (Cia. Experimentus Teatrais). Todos os encontros são abertos ao público.

Ainda na sexta-feira (06), na Casa da Cultura Dide Brandão, às 16 horas, acontece a discussão sobre o espetáculo “Por que a gente não é assim? Ou Por Que a Gente é Assado?” do Grupo Bagaceira (CE). Já a conversa sobre a peça “Como nasce um cabra da peste” do Grupo Agitada Gang de João Pessoa (PB), foi transferida para o sábado (07) após a apresentação do espetáculo às 20 horas, no Teatro Municipal de Itajaí, que encerra o festival. O debate é um importante espaço reservado para que os grupos possam expor suas experiências, pesquisas e processos de montagem dos espetáculos selecionados para o Festival.

Os espetáculos da Mostra Local em debate

O espetáculo Pequeno Inventário de Impropriedades, da Téspis Cia. de Teatro de Itajaí, foi apresentado no último domingo (01), e conta a história de um homem que vive dentro de um cotidiano previsível e repetitivo até que um acontecimento muda o rumo de sua vida. Saindo de uma vida ordinária, ele descobre o poder da violência latente dos dias em que vivemos. Ficção e realidade se misturam até não conseguirmos distinguir onde uma começa e a outra termina.

A peça Mistérios de Elêusis da Eranos Círculo de Arte de Itajaí, foi apresentada na última segunda (02) conta o mito de Deméter e Perséfone, onde ambas tinham uma profunda ligação, até que a filha foi raptada por Hades, deus do mundo dos mortos. Deméter, em profunda tristeza, dirige sua raiva aos homens e castiga a terra com infertilidade. Perséfone come das mãos de Hades sementes de Romã e é aprisionada para sempre. Mistérios de Elêusis é uma trilogia em teatro Lambe-lambe que narra três momentos desse mito.

Um Príncipe Chamado Exupéry, da Cia. Mútua de Itajaí, foi apresentado em duas sessões, na terça-feira (03) e conta a história de Exupéry, um jovem e destemido aviador. Ele e seus amigos, que juntos formam “os cavaleiros do céu”, enfrentam o mar, o céu, o ar, a noite, o deserto, as montanhas e as tempestades para cumprir seu ofício: transportar o correio aéreo. Essa vida de perigo, mistério e aventura inspira Exupéry a começar a escrever sua obra. Em uma época em que os aviões eram quase de papel, o jovem entregava cartas em escalas de voos diários, que se estendiam pela Europa, África e América do Sul.

Na quarta-feira (04), aconteceu a apresentação do espetáculo Alevanta Boi!, da Cia. Manipuladora de Formas Etc i Tal, de Itajaí. O espetáculo é um resgate da cultura popular das historias e cantorias de boi, como: o boi-bumbá, o bumba meu boi, o boi de mamão, etc. Matheus, um velho viajante chega com sua carroça puxada por um boi de mamão, abrindo espaço na praça, para mais uma de suas contações de histórias.

O espetáculo Luisa da Cia. Experimentus Teatrais de Itajaí, também foi apresentado na última quarta-feira (04), onde Luisa narra o seu reencontro com Agustín, que após doze anos de espera, volta de repente em uma noite para explicar-se. O universo de Luisa e o universo de Agustín se entrelaçam, em uma história que mistura fatos, memórias e imaginação. As lembranças, reais ou criadas, compõem uma trama tecida e destecida pelo tempo, pelo amor e pela espera.

Debate do sábado (07), às 21h no Teatro Municipal, após a apresentação do último espetáculo

A conversa com o Grupo Agitada Gang, sobre a peça Como nasce um cabra da peste, foi transferida para o sábado (07), após a apresentação do espetáculo às 20 horas, no Teatro Municipal de Itajaí, programação que encerra o III Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha. O espetáculo "Como nasce um cabra da peste" está centrado nos preparativos e procedimentos populares para o nascimento de uma criança no sertão nordestino. É um espetáculo que mesmo ao transportar para o palco essas situações numa abordagem cômica, o faz de maneira comovente, humana e respeitosa para com o homem do interior e sua cultura.

Crítica: Por que a gente não é assim? Ou Por Que a Gente é Assado?

Fotos: SECOM/Itajaí - Jonnes David
Baile de Máscaras de um Império em Ruínas
Crítica de Humberto Giancristofaro sobre a peça do Grupo Bagaceira, Fortaleza – CE.

Seguindo a sua linha provocativa, o Grupo Bagaceira, apresentou no III  Festival Nacional de Teatro Toni Cunha, a peça Por que a gente não é assim? Ou Por Que a Gente é Assado? Ela trata da experiência desafiadora de agarrar uma identidade em meio ao turbilhão da vida. Seus personagens, sempre fragmentados, descobrem a inviabilidade de se afirmar por uma característica essencial e, assim, se lançam num baile de máscaras e se confrontam com o eterno lema: “eu tô mudando”.

“Eu tô mudando” é uma condição de possibilidade do homem contemporâneo para se entender com a sociedade. As velocidades, as prioridades, os olhares, os recortes, etc. mudam tão vorazmente a cada instante que é impossível dizer, assim na lata, eu sou isso ou eu sou assado. A vida acontece à revelia e os acontecimentos, mesmo aqueles dos quais fazemos parte, escapam das nossas mãos o tempo todo. Como é o caso do personagem da peça que alcança a efêmera fama de artista da semana na internet com seu vídeo viral. Ele só não consegue descobrir, porém, qual é o conteúdo desse vídeo que alçou sua personalidade. O reconhecimento desse estado de mudança como projeto de vida é a grande força criativa/ criadora que desponta na nossa geração. Isso se dá exatamente por ir de encontro com ideais que exigem o atestamento de uma identidade própria (portar códigos de barras imutável) – veja o desconforto da parcela conservadora com aqueles que cobrem as caras nas manifestação, tentando apenas se salvar ou do gás lacrimogêneo do momento ou das câmaras de gás em que suas identidades serão enfiadas. A peça é um deboche às tentativas pueris de conter as aparições da mudança por meio de regras, rótulos, reuniões, agendas e consumos. Tudo na tentativa de tratar os indivíduos como multidão, ou massa de manobra, e encaixar a todos num curral.

O fato de essa peça acontecer na rua é especial. Ela explode para além da plateia e para além de um teatro e alcança os transeuntes, mesmo aqueles que recebem apenas um fragmento dela. Com um pedaço dessa arte, o transeunte-agora-espectador recebe mais uma referência em sua vida, só que esta é uma referência viral, no sentido de que ela serve para por em questão o que fazer com todas as outras referências que agarramos. O que fazer com todas as referências que são postas no nosso colo? Como devemos agir diante das novidades que ululam nos nossos celulares, tablets e gadgets sem fim? Quem devemos ser com tudo isso? Como formar um pensamento que se referencie a tudo isso que acontece? Por que a gente não é assim?... é uma peça que pede calma e oferece um olhar bem-humorado sobre essas exigências. Uma apologia ao always look the bright side of life dos nossos tempos.

Crítica: Porque não estou onde você está

Fotos: SECOM/Itajaí - Victor Schneider
Solitários enlaces
Por Dâmaris Grün

O espetáculo "Porque não estou onde você está" fala de presenças ausentes que ocupam o mesmo espaço, de um casal sem afeto aparente que inventa regras fixas de convivência para poder suportar as agruras de um casamento torto e marcado pela presença de uma terceira figura, desestabilizadora e fantasmagórica, que confunde os sentimentos dos personagens Homem e Mulher, que habitam um casamento de “milímetros, de réguas”.

Baseada na obra Extremamente Alto e Incrivelmente Perto de Jonathan Safran Froer, romance que aborda a ausência de um pai na vida de seu filho ao serem separados por uma tragédia, a dramaturgia de Maira Lour capta a premissa temática da “ausência” do livro e transpõe a história para um casal que estabelece regras convivais que não podem ser quebradas, tais como nunca perguntar como o outro está, como foi o seu dia, nunca ser gentil nem mesmo demonstrar qualquer sentimento, e etc. Todo narrado pelos atores, com diálogos pontuais que carregam um sentido narrativo que vai aumentando a distância entre aquelas subjetividades, o que impera é uma frieza que se materializa no estatuto de regras por eles criado e na relação que estabelecem com o terreno do lar: demarcações milimétricas, retas, quadrados que beiram a cama, filigranas de olhar que beiram o ocultamento do outro no campo de visão do casal. Lugares “nada” por eles denominados e preenchidos por personagens extremamente solitários. Dentro dessa convivência completamente estática no afeto (do não saber dizer “Eu te amo”), no ocultamento de um pela presença do outro, deflagra-se o tempo inteiro a personagem Anna, que sintetiza a capacidade de amar de ambos, o amor fraternal que se confunde com paixão da Mulher por ela e o arrebatamento juvenil da paixão do Homem.

O texto tem ainda um fundo histórico, já que a presença de Anna em cena remete a alguma guerra - que pode ter sido a 2ª Guerra Mundial já que os figurinos tem uma modelagem que beira os anos 50 – em que ela se torna vítima fatal. Assim, a personagem aparece como uma rememoração, sempre num plano da memória do casal, como uma memória compartilhada e estraçalhada pela tragédia da guerra.

É interessante atentar para o fato de uma pretensa capacidade de expressar os sentimentos e sensações do casal só se dar na relação que ambos estabelecem, em tempos discrepantes, com Anna. Essa personagem aparece num plano da memória, mas é dentro dessa materialização que somente é possível ver uma relação mais pessoal e intensa de sentimentos do casal. Isso porque a aparição de Anna espelha a incapacidade de comunicação entre esses seres e, principalmente, a impossibilidade que eles têm de enunciar "Eu te amo". Isso porque nenhum personagem, aqui, nessa história, está presente onde o outro habita: o casal vive num mesmo espaço cotidiano, mas nunca estão juntos ou se permitem estarem. E a figura fantasmática de Anna opera uma cisão: é impossível aquele passado se estabelecer, pois ele é fruto de uma inadequação do casal ao presente, pois ele está amarrado às lembranças de um porvir que não se deu. Da mesma forma que o passado é alento aos dois, é uma regra estabelecida não o mencionarem, não falarem nada sobre ele ou revê-lo juntos. Dentro dessas impossibilidades comunicativas e emotivas que se materializam nessas não presenças, a metáfora da impossibilidade de ver o outro e estar ao lado de alguém de forma verdadeira é a grande chave desse espetáculo. Porque não estou onde você está é uma condição afirmativa do texto e da encenação, a conclusão do que vemos em cena carrega somente uma metáfora redentora: a libertação que o extravasamento dos afetos possibilita através do ato de soltar os bichos que o Homem cria em gaiolas e armadilhas.

A encenação de Maira Lour dialoga diretamente com a relação da ausência e frieza nas regras de convivência do casal. Na forma narrativa da dramaturgia as distâncias entre os personagens se estabelecem de forma límpida e proposital, e mesmo a palavra falada possui um caráter quase declamatório, que invariavelmente coloca o espectador em contato com o estado daquela situação. É por esse viés amorfo de emotividade que o espetáculo conserva uma dinâmica coreografada na fala, nos diálogos e no registro interpretativo marcado por gestos. Esses gestos substituem palavras que somem e que não podem sequer serem ditas, tamanha a distância que os milímetros daquelas regras impõem ao casal. Mesmo na relação mais direta, que se dá com a personagem Anna, tanto do Homem como da Mulher com ela, a contracenação se dá numa formalização dos sentimentos, através desses gestos secos e de movimentos coreografados que delimitam uma artificialidade daquelas relações, como no momento específico da primeira relação sexual entre Anna e o Homem por exemplo. O caminhar reto e estacado tira qualquer possibilidade de aconchego na recepção daquela história. É em milímetros, réguas, quadrados, gaiolas que estão presos aqueles estados d’alma. Assim, a escolha da direção, me parece, repousa na verificação cênica da frieza que emerge do conteúdo dramatúrgico. Reverberando assim em uma montagem extremamente formal e distanciada entre as atuações na cena e em como se verifica esse jogo com a plateia. Sobre esse dado do distanciamento nas atuações é possível aventar uma nesga de cumplicidade com a expectação na medida em que a ela se dirigem os personagens ávidos em comunicar aquilo que podem com o outro em cena. Esse é o jogo com a plateia, e ele faz um contraponto simbólico com a problematização da comunicabilidade nas relações entre as pessoas.

O desenho de luz de Beto Bruel recorta o espaço e delimita os sentidos daquela história em tomadas eficazes para aquelas situações. Os quadrados de branco que incidem em todo o espaço da casa, que se limita a uma cama, uma mesa com cadeira e uma máquina de datilografar, presentificam a coisa do milímetro, do “casamento de réguas” na visão dos próprios personagens. Assim como as gaiolas penduradas no cenário apresentam a metáfora do aprisionamento daquelas individualidades aos padrões por elas determinados. Esse desenho de luz permite espaços compactados por uma claridade sempre sombria, capaz de estabelecer sujeitos ocultados na visão espacial de cada um, encobertos, milimetricamente retidos em seus espaços “nada”. É importante destacar que a luz nas aparições de Anna é mais aberta, um âmbar que desenha uma materialidade mais onírica e de rememoração.


Porque não estou onde você está é um trabalho que possui um ano e meio de estrada e no qual se pode ver a busca da jovem Súbita Companhia de Teatro de uma singularidade formal e de tratar de questões que interessa aos seus integrantes. Na tentativa de cavar seus espaços no teatro e nas diversas linguagens que ele possibilita temos aqui um trabalho que tem uma cara e, principalmente, que é dado dentro da perspectiva de jovens sedentos pelo fazer teatral e pela pesquisa cênica.

Crítica: Mistérios de Elêusis

Fotos: SECOM/Itajaí - Jonnes David
A mitologia e o Lambe-Lambe
Por Mariana Barcelos

Os Lambe-Lambes na praça e o público que se posiciona em fila e sabe esperar. Em Itajaí a tradição se mantém. Na tarde do dia 02 de setembro, ao lado da Casa de Cultura Dide Brandão, os três caixeiros do teatro de animação Mistério de Elêusis se posicionaram com seus figurinos e caixas decoradas e deram início à apresentação. Alguns passantes perguntavam curiosos do que se tratava, e aguardavam na fila para descobrir o que era. O Lambe-Lambe tem este nome por inspiração nos fotógrafos lambe-lambe do início do século XX. O formato da caixa de apresentação se assemelha mesmo a uma grande câmera fotográfica , e de certo modo o que se vê é uma sucessão de fotografias animadas. A imagem é uma ligação que não se perdeu.

Os caixeiros, que manipulam e apresentam os episódios/cenas da história, deixam a mostra o laço que os une além da caixa: a luva. Por vezes a luva é um personagem, e nesta fábula, seus detalhes pretos em couro serviram bem à Hades, deus do mundo dos mortos. Os Mistérios de Elêusis fazem parte da mitologia grega, e consistiam em rituais que celebravam as deusas Deméter e Perséfone (mãe e filha). O laço parental era tão forte que, após o sequestro de Perséfone por Hades, a terra passa por bruscas transformações na geografia do tempo. Por meio da mediação de outros deuses junto a Hades fica estabelecido que Perséfone passará metade do ano com a mãe, metade no mundo dos mortos. Deste movimento de subir e descer nascem as estações do ano. Junto à mãe, na terra faz primavera e verão, quando com Hades, na terra tem o outono e o inverno. Na mitologia, a mudança do tempo é fruto do afeto.

E o Lambe-Lambe tem aqui esse lugar de um didatismo divertido , de falar da mitologia, e de unir duas tradições. As três caixas estão divididas em: O rapto; Hades; Perséfone. Cada caixinha apresenta um mini espetáculo de três minutos para um só espectador. A manipulação dos bonecos é feita em frente a uma projeção simples e poética que representa os lugares onde as personagens se encontram, ora terra, ora Hades. Na terra tem uma árvore, no Hades uma parede de pedra. As metáforas são objetivas e excluem a voz em off, a informação oral, no fone de ouvido dado ao espectador antes da apresentação o que se escuta é uma trilha sonora. A trilha é reiterativa do estado de ânimo de Perséfone entre a terra e o Hades, e mais tarde torna-se fundo musical das estações do ano.

As caixinhas têm alguns recursos tecnológicos, como o fone de ouvido, as projeções e alguns efeitos simulando focos de iluminação. A narrativa é construída principalmente por tais recursos, os bonecos (e a mão de Hades) formam um encanto a mais. É interessante porque as caixinhas estão em frequente transformação. Mas o que se revela, como filme de fotografia, por detrás do buraquinho pelo qual olha o espectador é algo de muito mais antigo e sem fim: o encontro com a curiosidade.